sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Parte 2


No caminho, indo para a faculdade, resolvi parar em uma padaria. A noite estava quente, o tempo estava abafado, resolvi comprar algo gelado. Peguei um picolé qualquer, sem prestar muita atenção no que acontecia ao meu redor, eu estava ouvindo música pelo fone e isso me faz ficar completamente desligada do mundo. Até que me assustei, havia um senhor me chamando loucamente, olhei para trás ele estava no caixa. Eu estava saindo e me esquecendo de pagar o picolé, fiquei azul de vergonha. Tirei os fones e me desculpei, expliquei para ele que eu estava completamente aérea e que isso não iria se repetir, entreguei para ele o dinheiro e nem me hesitei em pegar o troco. Fui embora e já pensando que deveria ter ficado em casa depois de uma dessas.
Cheguei na faculdade, eram 19h e decidi entrar no segundo horário. Sentei em um banco próximo a algumas árvores, lá estava super fresco. Fiquei lá olhando para o tempo, ouvindo algumas músicas quando um rapaz, de aparentemente 23 anos chegou perto de mim. Eu não entendi muito bem porque aquele cara veio logo pra perto de mim em um lugar tão grande, mas tudo bem, fingi que nada estava acontecendo, aliás eu estava escrevendo e eu odeio que me interrompam quando estou escrevendo. Ele se sentou do meu lado, aquilo me deixou agoniada. Sorrateiramente desviei meu olhar para o lado aonde ele estava e percebi que ele lia indiscretamente o que estava escrevendo.
Da mesma forma que ele foi indiscreto eu também fui, comecei a olhar pra ele com cara de " posso escrever em paz?". Acredito que ele leu tudo o que estava escrito naquela folha, pois mesmo eu olhando pra ele, ele fingiu que nada estava acontecendo. Até que minutos depois ele olhou para mim e disse: "-você escreve muito bem!". Eu agradeci secamente e fechei o caderno. Ele começou a puxar papo comigo e eu não queria conversar, aliás cheguei a ser grossa em minhas respostas.
"-Qual seu nome?"
Eu olhei pra ele e demorei alguns segundos pra responder, acho que naquele instante ele até deve ter pensando que eu esqueci meu nome ou inventei um, mas respondi.
"-Laís..."
"-Hm... acredito que você não esteja muito bem, não é mesmo?!"
Neste momento me deu vontade de falar " Isso não é da sua conta, idiota. Nem te conheço!", mas respondi com a maior delicadeza possível, com um simples "é..."
Ele me fez mais algumas perguntas e aquilo já estava me irritando, estava me sentindo num tribunal.
Seu nome era Miguel, assim como eu, ele fazia Direito. Era alto, pele clara, cabelo bem preto, uma barba por fazer. Usava óculos e era muito cheiroso. Tinha um sorriso estonteante e um olhar misterioso.
Ele ficou falando mais algumas coisas comigo e eu não prestava muita atenção no que ele dizia. Até que ele me fez um convite, que a princípio não me toquei muito, aliás eu ainda estava aérea...
"-Acho que você não vai assistir aula hoje né?! Vamos sai..."
Eu o interrompi antes mesmo de terminar a frase já dizendo: "-Eu irei assistir aula!"
Ele me olhou assustado, na verdade até eu mesma me assustei com a minha resposta. O silêncio ponderou por alguns segundos até que ele disse:
"-Tudo bem então, fica para a próxima..."
Ele tinha ficado sem graça, e com razão, automaticamente me arrependi da resposta que dei. Ele já estava se levantando quando eu resolvi chamá-lo.
"-Ei, para onde iríamos?"
Ele sorriu. Seu sorriso era doce, seus lábios bem avermelhados e bonitos. Eu nada apaixonada por sorrisos, já logo me encantei.
"-Aonde você quiser ir..." respondeu ele.
Me levantei do banco dizendo: "-Vamos andar por ai, sem rumo..."
Ele sorriu com uma leve risada ergueu a mão para mim e fomos.
Passamos pelo centro da cidade, todos os bares estavam abertos e lotados, na maioria por estudantes. Era sexta-feira, por volta de 20h eu e Miguel continuamos andando... Ele ia falando comigo, expliquei pra ele que eu morava sozinha e que sentia muita falta da minha família. Ele me contou que morava com uma tia e que seus pais também moravam em outra cidade.
Miguel trabalhava e estudava a noite, como eu. Era um cara bem centrado, tinha um bom papo, dotado de boa educação. Era bem bonito por sinal, um cara atraente, portador de uma beleza exótica.
Paramos em uma praça perto do meu apartamento, eu já estava cansada de andar e não poderia demorar muito porque no dia seguinte iria visitar meus pais e sairia bem cedo. Ficamos ali conversando mais um pouco.
 "-Por que você estava sentada na faculdade sozinha em plena sexta-feira?"
Eu olhei pra ele um pouco sem graça, aliás não tinha muita resposta, iria dizer a verdade, pois eu tinha ido lá para assistir aula e a minha intuição havia me dito isso.
"-Eu iria entrar no segundo horário... na verdade eu não viria a escola hoje, assim como não fui ao trabalho, mas sei lá, algo me mandou ir lá, e eu fui...."
"Hmmmm..."
Olhei as horas, já estava ficando tarde, resolvi me despedir do Miguel. Me levantei meio que me espreguiçando.
"-Então Miguel, infelizmente tenho de ir..."
"-Já?"
"Já... Amanhã irei ver os meus pais, né?!"
"Hm... entendi, tudo bem então. Pode me passar seu celular ou telefone... o que achar mais conveniente?"
"Claro."
Passei o número para ele e enquanto ele anotava fiquei olhando-o discretamente. Miguel era alguém interessante. Logo ele me disse para anotar o número dele também. Abri a mochila e procurando meu celular deixei meu caderno de textos cair. Miguel pegou rapidamente e antes de fechar o caderno, fez uma rápida leitura naquilo que estava escrito.
"-Hey, atrevido, não te autorizei ler as minhas coisas!"
Ele sorriu e disse, "-Impossível não ler algo que você escreva, você escreve muito bem.Você escreve com a alma, vejo algo a mais nos teus textos..."
Eu sorri um pouco sem graça e peguei o caderno das mãos dele e guardei na mochila. Fui me despedir de Miguel com um simples beijo no rosto quando de repente ele me da um abraço. Me surpreendi imediatamente sem entender muito bem o que estava acontecendo. Permaneci abraçada a ele por alguns minutos, eu realmente estava precisando de um abraço, e o dele veio na hora certa e da maneira certa.
"-Apesar de não saber o que você tem, fique bem!", disse ele ainda abraçado a mim.
Nem me hesitei em responder, permaneci em silêncio. Nos soltamos, e fui embora. Eu estava perto do meu apartamento, por isso nem fiz questão que Miguel me deixasse em casa, fui sozinha.
O perfume dele ficou na minha roupa...


Continua no próximo post!


@LohAzevedo_

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